
Texto: Guilherme Henri e Carla Gavilan
Durante anos, elas bateram em portas sem saber a quem recorrer. Pediram fraldas, dietas, atendimento médico, apoio escolar. Mas, para alguns, eram apenas casos isolados. Agora, a realidade de dezenas de famílias atípicas de Campo Grande começa a ganhar rosto, números e respostas concretas a partir do Censo das Famílias Atípicas, lançado pela Defensoria Pública de Mato Grosso do Sul, por meio do Núcleo de Atenção à Saúde (NAS). Até o momento, já são 180 famílias cadastradas.
Conforme a coordenadora do NAS, defensora pública Eni Maria Sezerino Diniz, o levantamento já trouxe resultados práticos.
“Em um cadastro emergencial realizado nas últimas semanas de 2025, a Defensoria identificou oito crianças em situação grave, que precisavam com urgência da troca do bóton de gastrostomia, dispositivo essencial para alimentação”, revela a defensora.
Em alguns casos, o equipamento estava inflamado e sem substituição havia meses. A articulação imediata do NAS garantiu o fornecimento dos bótons ainda antes do recesso institucional.
“Essas famílias estavam invisíveis. O censo nasce exatamente para romper essa invisibilidade”, afirma a coordenadora.
Além do rótulo
Embora a maioria dos cuidadores seja composta por mães, a Defensoria optou por um conceito mais amplo.
“Tem pai, avó, avós, tias. Por isso falamos em famílias atípicas”, explica.
Segundo a coordenadora, o censo revelou um público extremamente vulnerável, com demandas que vão muito além da saúde.
“São famílias com múltiplas necessidades: atendimento médico especializado, acesso à escola, renda, suporte social e, muitas vezes, uma estrutura familiar fragilizada”, destacou.
Dados para transformar
A iniciativa surgiu a partir da articulação entre a Defensoria e a Prefeitura de Campo Grande para a criação de um núcleo especializado de atendimento às múltiplas necessidades em saúde. Até então, o município não possuía qualquer levantamento sobre esse público.
“O poder público não sabia quantas famílias existiam nessa condição. O que chegava eram pedidos pontuais, fragmentados, sem compreensão do contexto socioeconômico”, explicou a defensora Eni Diniz.
Com o censo, a Defensoria passou a estimar a demanda real, identificar famílias com ou sem processos judiciais e mapear obstáculos recorrentes no acesso a direitos básicos.
O cadastramento geral teve início em dezembro do ano passado e segue aberto, funcionando como uma base permanente de dados para orientar ações institucionais e políticas públicas.
Emergência e acolhimento
Além dos números, o censo ampliou a atuação direta da Defensoria junto às famílias.
“Quando identificamos uma situação crítica, nossa equipe vai até a família para verificar de que forma a Defensoria pode atuar”, explicou a coordenadora.
Esse trabalho de proximidade também fortaleceu o apoio à formação de uma associação de mães atípicas, iniciativa que busca dar organização, voz e representatividade a um grupo marcado pelo sofrimento e pela exclusão.
“Queremos que essas famílias tenham força coletiva, consigam se estruturar e ampliar o acesso a direitos”, afirmou.
Coordenadora do NAS, defensora Eni Maria Sezerino Diniz (Foto: Arquivo/ DPMS)
Participação segue aberta
O Censo das Famílias Atípicas de Campo Grande continua aberto à participação de mães, pais e cuidadores de pessoas com deficiência, TEA, doenças raras ou condições crônicas. O preenchimento é feito por formulário eletrônico, com garantia de sigilo e uso exclusivo das informações para fins institucionais.
“Ouvir essas famílias é o primeiro passo para construir políticas públicas mais humanas, justas e eficazes”, concluiu a defensora.
Formulário
https://forms.office.com/pages/responsepage.aspx?id=wWxQ2fSg7U-TkmJ6rU7Y8r9M2inTXspDh55sQ7TOpIZUMDA0WTlGVzVTV1pYOTVGWDRNWEFHWEw3Qy4u&route=shortur

